Posterous theme by Cory Watilo

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Os requisitos de uma parte interessada distante, silenciosa e perigosa

Todos sabemos, e o BABOK nos relembra, que não podemos iniciar a elicitação* sem termos uma visão clara de quais são as partes interessadas do projeto (stakeholders). Quando pensamos em partes interessadas as primeiras que nos vem à mente são:

  • Cliente (interno ou externo);
  • Patrocinador do projeto (show me the money!);
  • Usuário final;
  • Desenvolvedores**.

Contudo, em muitos projetos existe uma parte interessada importante, geralmente distante e silenciosa durante a análise, que pode ser perigosamente negligenciada, o órgão regulador.

Por órgão regulador podemos tomar qualquer instituição (governamental ou não) que defina regras relativas a um determinado tipo de produto, profissão, uso de recursos naturais, conduta fiscal entre outros, e que tenha poder de penalizar ou de exigir a penalização (criminal, civil ou administrativa) para quem não as seguir.

Os setores são mais ou menos regulados dependendo dos interesses envolvidos. Setores onde a saúde das pessoas, o uso de recursos naturais e principalmente muito dinheiro estão envolvidos são altamente regulamentados.

Na IONICS atuamos no ramo de automação para postos de combustíveis, um mercado que chama mais atenção à medida que os preços dos combustíveis sobem, as somas movimentadas e a sonegação de impostos e falsificação também.

Para apertar o cerco, as secretarias da fazenda de quase todos os estados do Brasil definem regras de operação e registro das operações efetuadas nos pontos de venda do comércio em geral (frente de caixa) e muitas regras específicas para postos de combustíveis.

Isso faz com que as frentes de loja dos sistemas de gestão tenham que ser submetidas à homologação, uma vez por ano ou a cada nova versão, junto às secretarias da fazenda. Essa homologação leva em conta todas as funções fiscais do sistema e a sua integração com os emissores de cupom fiscal (ECFs). A integração com os periféricos de transferência eletrônica de fundos (TEF) é certificada pelas operadoras de cartões e este certificado é pré-requisito para o processo de homologação junto às secretarias.

Recentemente o processo de homologação dos sistemas sofreu uma mudança considerável através da unificação das regras em todos os estados conhecida como PAF-ECF (Programa Aplicativo Fiscal x Emissor de Cupom Fiscal). Além da adoção das regras mais eficazes em uso em alguns estados, novas regras foram criadas, apertando ainda mais aquele cerco.Você deve imaginar o trabalho que essas regras trazem para as empresas que fornecem esses sistemas. Por um lado, elas podem envolver grandes mudanças na arquitetura dos sistemas como, por exemplo, a exigência de que uma estação de trabalho possa efetuar as operações mais importantes mesmo quando desconectada do banco de dados central.

PDV - Ponto de Venda
Software de gestão de postos de combustíveis
operando em uma frente de loja

Por outro lado, as regras raramente são fáceis de entender. Para termos uma idéia, para entender o PAF-ECF é necessária a leitura criteriosa de pelo menos oito atos e convênios relacionados ao ICMS (veja um exemplo aqui) além de muitas ligações, conversas, congressos, cursos (onde há uma dificuldade existe uma oportunidade) e orações.

Esse interesse todo existe porque as secretarias são uma parte interessada muito importante e poderosa. Um fiscal pode notificar, multar e até mesmo impedir a operação de um estabelecimento que não utiliza sistema homologado.

A diferença entre a maneira com a qual essas regras se apresentam e o que esperamos de bons requisitos (completos, viáveis, testáveis, necessários, priorizados e, principalmente, não ambíguos) é razoável.

Podemos ver esses obstáculos como algo indesejável e incômodo, talvez mais um componente do “Custo Brasil”, mas eu prefiro ver como uma oportunidade, tanto para os fornecedores de software quanto para os analistas de negócios.

Para os fornecedores de software capitalizados, organizados e prevenidos, os requisitos dos órgãos regulatórios causam muito menos impacto do que causam nos seus competidores menos preparados. Essa dificuldade diminui a possibilidade de entrada de competidores e até mesmo estimula a desistência de alguns (bem no estilo Michael Porter).

E a oportunidade para os analistas de negócios? Bem, não vou dizer que trabalhar com isso seja exclusividade nossa, todavia, quem seria mais indicado para compreender o que precisa ser feito*** e traduzir isso em requisitos para uma solução de software?

Claro que para isso precisamos nos adaptar, sair do conforto que alcançamos ao lidar com aquelas partes interessadas tradicionais citadas lá encima e investir nas softskills “aprendizado” e “ensino” citadas no BABOK.

No aprendizado, precisamos estar abertos para novos termos de negócios, novas definições e maneiras de pensar, aprender a nos comunicar com pessoas de diferentes regiões do país, através de telefone, que nem sempre estarão dispostas ou preparadas para fornecer as informações que precisamos. Isso tudo para conseguirmos reduzir a ambigüidade encontrada.

Aqui podemos nos inspirar na área contábil, não apenas pela familiaridade que esses profissionais possuem com regras, mas pela habilidade que eles possuem em receber informações diárias de diversas fontes e esferas e sintetizá-las de forma clara para seus pares e clientes. Nesses casos, um profissional com formação em ciências contábeis que dominasse as áreas de conhecimento da análise de negócios seria fenomenal.

Em relação ao ensino, é fundamental que o analista de negócios, além de levar em conta as características dos bons requisitos que lembrei acima, reserve tempo e disposição para as várias interações informais que ocorrerão junto aos seus colegas do desenvolvimento, do marketing, da área comercial, entre outros.

Por estudar a fundo essas questões, o analista de negócios se tornará referência e, mesmo que a sua documentação seja primorosa, que sua apresentação junto ao telão seja impecável, principalmente no Brasil, uma conversa informal cara a cara traz aquela segurança a mais da qual todos gostamos e haverá muitas.

Por fim, sugiro que você verifique se os produtos ou serviços oferecidos pela sua empresa estão submetidos a algum conjunto de regras específico imposto por algum órgão regulador e, se este for o caso, avalie se essas regras são bem compreendidas, se estão refletidas corretamente no produto.

Se isso não estiver acontecendo você acabou de encontrar uma ótima oportunidade de trazer muito valor para a empresa prevenindo enormes perdas futuras potenciais (dependendo da severidade da regulamentação podemos falar até em prisões) e aumentando a competitividade em relação às empresas que não tiveram a mesma sorte de ter alguém que fizesse essas perguntas.

* “Elicitação” é a adaptação da palavra “Elicitation” provavelmente adotada na futura versão em português do BABOK 2.0.
** Os desenvolvedores podem ser fonte de uma série de requisitos. Abordarei isso em um post futuro.
*** Como nos lembra o Paulo Vasconcellos citando Peter Drucker.

Jóia Posto
Jóia Posto de Florianópolis. O posto se mantém de acordo com as legislações
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