O catalisador vaidoso

Lembro de um daqueles longos dias em 1995 nos quais eu passava três turnos em aula me preparando para o vestibular quando o professor de biologia nos fez acordar do soninho pós almoço com essa declaração: “estamos todos mortos, não, pior, não existimos, nunca existimos, ou, na melhor hipótese, somos delírios de seres unicelulares que nadam em matéria orgânica bruta”. Ahh os professores de cursinho…

Não lembro dos detalhes, mas, a ideia é que as células humanas precisam de uma temperatura de aproximadamente 70 °c para realizar as reações químicas necessárias para a manutenção do que conhecemos como vida. Todos sabemos que vivemos entre 35°c e 40°c, ou seja, se precisamos de 70°c, a vida não é viável. Pare de tentar desentortar a colher, pois não existe colher, aliás, você não existe.

Depois de acordarmos ele nos explicou que a vida é possível porque existem substâncias conhecidas como catalisadores. Os catalisadores possuem como “missão” reduzir a quantidade de energia (temperatura é energia) necessária para que uma reação química ocorra. Dessa forma, os nossos corpos operam a 36°c como se estivessem acima dos 70°c. Ufa, estamos vivos, podem voltar a tentar desentortar as colheres. Bom, funcionou, eu gabaritei biologia (20 questões em 20!) e lembro dessa história até hoje.

Enzimas3

A moral da historinha é dizer que o apesar do catalisador ser fundamental para a vida humana, um catalisador com noção nunca se colocaria em uma posição superior, ele sabe que sua existência só faz sentido se ele operar junto às células e as demais substâncias que elas processam. Sozinho ele é apenas mais uma “substância sem substância”.

Bom, é isso, eu gosto de catalisadores e queria fazer uma homenagem. Lembre-se de todas as noites antes de dormir fazer um pensamento positivo agradecendo a eles a sua vida.

Um abraço!

Menino-rezando-com-seu-caozinho

“Catalisadores nossos que estão no nosso corpo, obrigado pela digestão do pão de cada dia”.

 

 

 

Ahh, tá bom, até parece que eu iria escrever um post curtinho assim.

Bem, recentemente eu ouvi o gerente de uma área destinada à análise de negócios em uma organização gigantesca se referir aos desenvolvedores de software como sendo vaidosos. Segundo ele, essa vaidade era a justificativa para reações negativas às iniciativas da análise de negócios.

Se fosse 2004 eu daria uma risadinha desdenhosa em relação aos desenvolvedores, concordaria com ele e seguiria para outros assuntos, pois, infelizmente, eu agi e pensei assim por um bom tempo, afinal, é muito mais fácil colocar um rótulo em alguém e deixar de lado nossos próprios defeitos.

Em seguida, o gerente fez o mesmo tipo de comentário em relação às áreas de negócios que não utilizam o template padrão e insistiam em trabalhar com uma forma de criação de produtos que não se encaixa na fábrica de especificações montada pela sua área de análise de negócios.

O Claudio Br de 2011 ficou injuriado. Como pode não ocorrer para um analista de negócios que deve haver uma razão plausível para uma área de negócios não querer seguir o seu processo? Como pode não ocorrer para um analista de negócios que desenvolvedores de software, na sua enorme maioria, são motivados pelo desafio de compreender o problema, discuti-lo e sim, entregar diretamente para a área de negócios interessada o resultado do seu trabalho?

Olha só que irônico, logo depois de falar mal de rótulos, vou usar exatamente aquele que critiquei: acho que é vaidade. Uso esse termo sem moderação, pois muitas vezes me encaixo bem na descrição que o dicionário dá:

Desejo imoderado de chamar atenção, ou de receber elogios: gasta bilhões por mera vaidade.

Idéia exageradamente positiva que alguém faz de si próprio; presunção, fatuidade, gabo: não teria a vaidade de intitular-se sábio.

Coisa vã, fútil; futilidade.

Alarde, ostentação, vanglória.

Considero-me um rei do auto-elogio (me elogio até quando me critico). Aprendi que precisamos saber nos vender, pois somos, como profissionais, produtos e todos os produtos precisam de promoção.

Acho que eu nunca contei em público a verdadeira história sobre como me tornei analista de negócios de TI, então lá vai, sem floreios e sem glamour.

No final de 2000 eu trabalhava com Internet havia uns quatro anos, comecei como webdesigner e fui migrando para o desenvolvimento com PHP e mySQL e estava indo bem – não tanto quanto a arrogância natural dos 23 anos de idade me fazia acreditar – trabalhava na Fenasoft (que na época ainda era algo de porte) e entregava muito software utilizando minha habilidade natural de entender o negócio para entregar algo que deixava os clientes bastante satisfeitos. Eu havia largado a engenharia civil, assumido meu amor pela Internet e pensando que tipo de curso iria fazer.

Eu era desenvolvedor de software e um dia no aniversário de um amigo (22/12/2000) fui a um churrasco na sua casa. A conversa rolava solta e acabei em uma mesa falando para algumas pessoas sobre as maravilhas da informática, o futuro da Internet e o enorme poder dos desenvolvedores, das coisas fantásticas que podíamos fazer nessa nova era, no novo milênio.

À mesa estava um acadêmico de administração da melhor faculdade do estado. Ele falou algo como “cara, eu pego um desenvolvedor, coloco em uma sala com pizza e coca-cola, junto o que ele fez e vendo por 50 mil reais. A força está no negócio, em quem sabe vender, não em quem sabe fazer”.

Aquilo mexeu comigo e mudou a minha vida. Eu havia largado uma faculdade, quebrado minha primeira empresa de Internet e ficava dividido entre estudar negócios ou aprofundar meus conhecimentos técnicos. Negócios venceu e em 2001 comecei administração com habilitação em marketing.

Como desenvolvedor eu estava de saco cheio de ver alguém usando o meu trabalho para se promover. Nos meus primeiros freelas, eu dava 50% do faturamento para a pessoa que arrumava os trabalhos, nas empresas que trabalhava, fazia coisas muito legais em prol de algum gerente engravatado que ficava com os louros mesmo tendo ajudado muito pouco. O único trabalho no qual eu era completamente reconhecido era o Projeto Fortalezas Multimídia da universidade federal, uma iniciativa no estilo “software livre” em um ambiente de extrema colaboração e ótima liderança.

Estudar administração foi muito bom para mim e em pouco tempo encontrei na análise de negócios um caminho muito legal para atingir meus objetivos da época.

O problema era que meu maior objetivo na época era suprir a minha vaidade. Comecei a usar roupa social, falar diferente e passei a tratar os desenvolvedores não mais como meus pares, meus iguais. Eu sempre me dei bem com eles, mas, infelizmente, atuei por um bom tempo usando a análise de negócios para me diferenciar, para parecer melhor dos que o pessoal de TI, para ser “o cara”.

Tive bons resultados que me trouxeram onde estou, mas confesso que durante um bom tempo quando a coisa apertava eu fazia como aquela gerente, simplesmente rotulava quem não se comportava como eu esperava e seguia adiante. Muito arrogante e imaturo.

Infelizmente adotei um jeito de crescer que considero muito danoso: crescer negando a importância do outro. Por um tempo para mim era a análise de negócios quem definia o futuro, direcionava as inovações, tinha as ideias, que entendia de TI e de negócios ao mesmo tempo, uma verdadeira bala de prata, uma mosca branca de olhos azuis.

É… Eu estava errado e fico feliz de ter acordado a tempo.

Acordar me fez mudar muitas coisas, parei de falar em “documentar requisitos”, migrei para “comunicar requisitos” e hoje estou em “discutir requisitos”.

Parei de defender análise de negócios como uma profissão, um cargo e passei a falar em valores, cultura, atitude, algo que pode ser praticado por qualquer pessoa na organização. 

Já queimei muitos slides de palestras.

Quem pratica análise de negócios, seja um profissional com esse foco específico, seja o próprio time de desenvolvimento em uma metodologia ágil (com fácil acesso às partes interessadas), deve levar em mente que análise de negócios é “apenas” um catalisador.

Digo “apenas” porque parece que estamos exercitando a arte da “idéia exageradamente positiva que alguém faz de si próprio”.

Por mais que os palestrantes decentes insistam faz tempo na ideia de que o analista de negócios – da mesma forma que o gerente de projetos – não é um super-heroi, a tônica dos discursos e conversas que tenho ouvido é justamente essa.

O analista de negócios – uma personificação que já não considero mais tão positiva – anda se considerando o responsável pela inovação, pelo direcionamento, pelas boas ideias e as organizações andam comprando a ideia.

Esse comportamento está levando profissionais e áreas inteiras a se tornarem leões de chácara das áreas de TI, fazendo exatamente o contrário daquilo que está na definição de análise de negócios. 

Na prática, estamos restringindo o negócio com processos mirabolantes de coleta de requisitos (sim, coleta mesmo, igual à de lixo) e alienando a TI fazendo com que os desenvolvedores se transformem em fornecedores de código.

Na definição de análise de negócios vemos que ela deve agir como uma ligação entre as partes interessadas. Falta lembrar de que uma parede com uma fresta para a passagem de documentos não liga ninguém.

A inovação surge nas áreas de negócio, principalmente em relação ao o que fazer, que produtos ou recursos oferecer. 

A inovação surge nas áreas de TI, principalmente em relação ao como fazer, tecnologias novas, reaproveitamento inteligente de recursos existentes, o tipo de coisa que permite que os “o que fazer” do negócio se tornem realidade.

Quando desisti de desenvolver software e migrei para a análise de negócios eu deveria ter entendido que mesmo que pudesse contribuir com boas ideias, meu papel era outro, eu era o catalisador.

Como funciona a “química” do AN catalisador? 

Simples, ao invés da análise de negócios ser uma área independente da organização, um pedaço de um processo, algo com fronteiras bem definidas, com suas entradas (demandas) e saídas (especificações) ela opera como um ambiente, um tubo de ensaio onde negócio e TI interagem se transformando em inovação e competitividade – os nutrientes de uma organização de sucesso.

De forma romântica, os analistas de negócios não deveriam capturar borboletas com suas redes de processos intrincados, eles deveriam plantar um jardim. 

 

Campo

Como o fantasma do jogador de beisebol no filme “O campo dos sonhos” dizia repetidamente para o confuso produtor de milho: “if you build it, they will come” – “se você construir o campo, eles virão”.

No meu projeto atual estamos construindo um belo produto. Eu falo sem modéstia (rejeito modéstia com a mesma força que rejeito a arrogância) que como um bom catalisador, eu estou sendo fundamental para a reação química ocorrer.

Todavia, a inovação está vindo do negócio, de gente que sabe como as coisas funcionam, sabe o que quer entregar para o mercado e que atualmente convive com uma solução de software ruim.

Todavia amigos, a inovação está também vindo da TI, de desenvolvedores/arquitetos que entendem do que estão fazendo do produto que vão entregar e que criam soluções impressionantes no seu equilíbrio entre poder e flexibilidade.

Eu dei boas ideias aqui e ali, afinal, já sou macaco velho, mas o único crédito que vou assumir quando entregarmos aquela belezinha de produto é o de catalisador.

Interessante é que, se o catalisador fizer bem o seu trabalho, pode ir embora que a reação química continua (leia “O dia em que me tornei desnecessário“).

Se você é ou deseja ser analista de negócios e quer cumprir bem a sua missão deve se conformar em ser “apenas” um catalisador. Existe muita alegria e satisfação nisso, eu garanto.

Se o seu objetivo é se tornar dono de algum silo organizacional confortável (algo que considero desprezível) se impondo como atravessador absoluto entre negócio e TI (contrabandista de código-fonte), eu suplico que você procure outro título para não desmoralizar quem se dedica a cumprir real missão da análise de negócios.

 

 

 

 

5 ideias sobre “O catalisador vaidoso

  1. Engraçado, o analista de negócios está para o técnico de TI assim como o produtor está para o músico. Se o produtor faz o seu trabalho, que é garantir estrutura para o show, assim como alimentação, transporte, equipamento adequado entre outras coisa necessárias para que o show aconteça, este sim é um produtor, se ele é apenas um atravessador que vende o show pega a grana e deixa o contratante e o músico se fuderem em discuções para resolver pepinos que não são responsabilidade de nenhum dos dois, este cara não pode ser chamado de produtor, este cara é apenas um ladrão oportunista que não sabe a função na cadeia, não sabe ser catalizador. Bora ser "produtor" de verdade Gaúcho! Porque de picareta que se acha a ultima bolacha do pacote só porque tem algum poder no quintal da casa dele estamos cansados né não!?

  2. Gostei bastante do seu texto e concordo plenamente com você. Tive um professor de Gestão de Qualidade no MBA que falava o seguinte: "A empresa ter que ser Escola de Samba, integrada, harmônica, onde cada um deve saber exatamente o seu papel na organização” e o que vemos nas empresas é bem diferente, existe muito competição e pouca cooperação. Já tive Gestores que me falavam que como Analista de Negócio eu não poderia sugerir soluções as áreas e muito menos alinhar processos ou disfunções, tinha apenas que documentar as necessidades. Também já vi Analistas que não se importam com a opinião das áreas interessadas fazem o que acham que é certo, documentam requisitos, mas não o comunicam e nem discutem e o projeto é um fracasso.Tive outro gestor que ao elogiar um projeto meu em uma reunião, utilizou a seguinte frase: “Antes os analistas tinham que aceitar e fazer exatamente o que o cliente pedia, agora vimos que temos que questionar.” O mais importante o Gestor não falou que o sucesso do projeto foi em função da comunicação, que além de documentar requisitos houve a discussão e o consenso, ou seja, os questionamentos foram para entender e achar a melhor solução para atingir um objetivo alinhado com o planejamento estratégico da empresa.Eu concordo principalmente com você que hoje além de comunicar requisitos, temos que discutir requisitos para alinhá-los ao planejamento estratégico da empresa, faço isso no meu dia a dia e tenho ótimos resultados, e todos os participantes do projeto são responsáveis pelo sucesso.Abs.

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