Gerenciamento de riscos: o poder é de vocês
Minha amiga chega ao trabalho e após alguns minutos se dá conta de um fato aterrador: não consegue lembrar se tirou ou não a sanduicheira da tomada.
Você conhece a sensação, talvez o mais desagradável seja o fato de simplesmente não conseguirmos lembrar. A memória é assim: prega peças para dar sabor à vida, transforma em probabilidades o que poderia ser certeza.
Bem, os riscos fazem parte da nossa vida. Para que um risco exista basta determinarmos qualquer resultado esperado em qualquer ramo da atividade humana.
Acordo pela manhã, abro os olhos e penso: “vou trabalhar”. Pronto! Com essa frase nasceu o risco de eu não trabalhar hoje ou talvez nunca mais.
Riscos existem, podemos lidar com eles, ignorá-los (não saber da sua existência) ou simplesmente aceitá-los e as suas consequências. Ignoramos riscos que não conhecemos e aceitamos riscos que achamos pouco prováveis, como faço com o risco da minha casa ser atingida por um asteróide.
Como vamos lidar com um risco depende de uma equação simples na qual pesamos o quão ruim as coisas serão se esse risco se concretizar, qual a probabilidade desse risco acontecer de fato e por fim, qual o custo que vamos ter em lidar com ele.
Custo da ação < (Bomba / Probabilidade)
Em PT-br: o custo da ação não deve superar o custo da bomba explodir em relação à probabilidade dela explodir.
Os seres humanos que habitam o planeta hoje são descendentes dos seres humanos que souberam aplicar essa equação da melhor forma dado cada momento.
Vou usar a história da minha amiga para descrever o que podemos fazer em relação a um risco, no caso dela o risco da sanduicheira esquentar demais e causar um incêndio.
A primeira opção em relação a um risco é evitar. Trata-se da velha história de que prevenir é melhor do que remediar, só que para evitar um risco você precisa agir com antecedência.
Quando eu saio de casa dou uma geral nas tomadas e desligo até mesmo equipamentos sem muito risco, até para protegê-los de sobrecargas na rede. Isso tem um custo: são minutos perdidos da minha vida todos os dias e uma boa chance de adquirir um transtorno obsessivo-compulsivo.
Faço a continha e até então esse custo é menor do que a bomba em relação à probabilidade percebida por mim (casa velha).
Minha amiga ainda podia evitar o risco voltando para casa e se certificando de que a sanduicheira está fora da tomada, contudo o custo disso é bastante alto dado o fato do transporte na cidade dela ser bem precário e uma reunião importante estar marcada para logo mais.
Aqui vai algo importante: O custo de evitar só ficou grande porque o risco se tornou consciente quando era tarde demais. Podemos argumentar que ela poderia ser mais responsável, bla bla bla, mas seríamos apenas engenheiros de obra pronta, pois depois que o risco aparece costuma parecer óbvio para todos.
É virtualmente impossível conhecer todos os riscos com antecedência, dessa forma, cuidado com a obsessão de prever e evitar todos os riscos, isso pode ter um custo muito alto para a empreitada e você corre o risco :) de criar uma sensação de segurança total nas pessoas que não tem fundamento.
A segunda opção se chama transferir. Minha amiga paga seguro do imóvel e em última instância um incêndio acidental é coberto pela sua apólice.
A transferência é isso: alguém com mais condições do que você de lidar com a explosão da bomba aluga essa capacidade para você em troca de dinheiro antecipado.
As seguradoras e planos de saúde fazem a mesma continha que nós fazemos, só que do lado inverso. No caso da seguradora: Se a quantidade de dinheiro recebido pelo seguro dos imóveis for superior do que a média gasta pagando pelos que de fato pegam fogo, somado aos custos operacionais você está no lucro.
No filme Clube da luta existe um exemplo do tipo de conta simples que as empresas fazem, falam da decisão de fazer ou não recall de veículos que estão causando acidentes com mortes horrorosas, famílias inteiras morrendo queimadas. O raciocínio é:
A: número de carros em uso
B: taxa provável de falha
C: custo médio de um acordo judicial
Se A X B X C der um custo inferior ao enorme custo de um recall a empresa simplesmente não faz o recall permitindo as mortes e pagando seu preço na justiça.
Cruel? Bem, é exatamente o mesmo tipo de cálculo que nós fazemos no nosso dia a dia. Fazemos uma série de escolhas baseadas em custos e comodidades que afetam pessoas ou outros seres e como eles estão distantes nem nos damos conta. Isso se chama externalização dos custos, mas é assunto para outro post.
Nós pagamos o seguro porque percebemos que o custo é inferior ao custo do nosso imóvel vezes a probabilidade dele pegar fogo. Minha amiga tem seguro, mas digamos que ele não cobre outros problemas advindos do seu lar (veja que usei lar e não imóvel) pegar fogo como perder suas coisas, memórias e o tempo sem ter onde morar.
Uma vez que evitar era muito caro e transferir não parecia uma boa a minha amiga decidiu mitigar.
Mitigar um risco implica fazer algo que diminua a probabilidade ou as conseqüências do problema. A mitigação pode ser feita com antecedência, mas também pode ser uma ferramenta útil depois do risco aparecer caso você for criativo.
A idéia dela foi ligar para o síndico e solicitar que ele desligasse a chave geral de energia do seu apartamento. Essa ação diminui a probabilidade do apartamento pegar fogo a quase zero (mesmo com tudo desligado a probabilidade ainda existe) e tranqüiliza a pessoa uma vez que tanto faz a sanduicheira estar ou não na tomada (fonte daquela sensação desagradável de dúvida). É um grito de liberdade “dane-se maldita sanduicheira!”.
Todavia, existe um custo, esse custo está no tempo gasto ligando para síndico, está em dever mais um favor para ele (favor é custo), em provavelmente perder o que ela tem na geladeira e no tempo gasto reprogramando eletrodomésticos como rádio relógios e televisores modernos.
Minha amiga fez as contas e optou por mitigar dessa forma. Você pode não concordar com a solução dela e isso faz todo sentido porque risco e probabilidade tem a ver com percepção. Há pessoas que não dão bola para alguns riscos enquanto valorizam outros. Esse fenômeno é fruto da diversidade de experiências humanas.
Todavia, essas divergências na forma de ver os riscos e as probabilidades pode gerar muitos problemas que vão explodir mais à frente, pois a forma de lidar com os riscos tem tudo a ver com “custos” e ali o sapato é apertado.
É por isso que dentro do gerenciamento de riscos, o primeiro a ser analisado é justamente esse, o da diferença de percepção. Para isso vale conversar com os envolvidos na sua empreitada, deixar as coisas claras e decidir as ações em conjunto. Muitas ideias boas podem surgir disso.
Conforme a empreitada avança novas coisas acontecem e a nossa percepção muda ficando mais abrangente, o que possibilita que percebamos riscos que havíamos negligenciado, dessa forma, um bom gerenciamento de riscos além de participativo deve ser iterativo, ou seja, deve ocorrer em ciclos para absorver essas novas percepções e para manter o consenso.
Outra ferramenta fantástica do gerenciamento de riscos é enfrentá-los, trazê-los para mais perto para saber se realmente são aquilo que você pensava. Isso está no coração do agile no desenvolvimento de software e do lean no que tange ao modelo de negócios como um todo. Quanto mais cedo e mais barato você lidar com seus riscos, melhor.
Escrevi este artigo porque gerenciamento de riscos tem sido vendido como uma ciência dominada por poucos escolhidos e realizada dentro de salas fechadas quando na verdade trata-se de uma atividade natural humana que deve ser realizada por todos os envolvidos o tempo todo.
Como dizia o Capitão Planeta, o poder é de vocês. Que tal se reunir com os envolvidos, fazer um brainstorm para descobrir os principais riscos e depois bater um bom papo sobre como lidar com eles?
A sua sanduicheira - vida pessoal - é fundamental, mas os riscos que afetam o seu trabalho também merecem atenção consciente.