A Cigarra e a Formiga
No bosque havia uma cigarra faceira, vivia cantando e batendo papo por aí, conversava com quase todos, menos com as formigas que passavam o verão todo carregando comida para seu formigueiro.
Um dia a cigarra abordou uma formiguinha e perguntou “por que você passa o dia carregando comida para sua casa?”, “para termos o que comer durante o inverno”, respondeu a pequenina, “e você faz o que mais da vida?”, “eu leio sobre como carregar mais comida por viagem, como e descanso para o trabalho do dia seguinte”, “sério? Uau, quer fazer uma pausa para tocar uma musiquinha e relaxar?”, “não posso, nossa metodologia de trabalho me impede de parar dentro do turno de trabalho, nem devia ter parado para falar com você, afinal, estou cheia de trabalho atrasado”, “belê então formiguinha, manda brasa aê”, disse a cigarra enquanto afinava o violão.
A formiguinha se foi levando cinqüenta vezes o peso do seu corpo nas costas e a cigarra queimou um paiero enquanto mandava ver numa milonga paraguaia para umas joaninhas que estavam por ali.
O verão se foi e o inverno implacável chegou. As formigas se trancaram no formigueiro quentinho e repleto de comida. Lá, tinham tudo o que precisavam, mas era um tédio. Como não havia muito espaço, podiam no máximo dormir, estudar ou escutar palestras motivacionais sobre coleta de alimentos.
A maior diversão das formiguinhas durante o inverno era esperar os outros insetos baterem na porta implorando por comida e abrigo, cada vez que um aparecia era um evento, elas sorteavam qual teria o privilégio de escolher se mandaria o bicho se catar ou se trocaria um prato de sopa quente por duas horas de discurso sobre a importância de se prevenir para o inverno.
Vários insetos apareceram e sofreram nas mãos das formiguinhas, mas a safada da cigarra não aparecia. Algumas formiguinhas chegaram a montar um bolão de apostas quanto ao dia e o estado no qual a violeira iria aparecer. “Aposto que vai até querer trocar o violão por comida” dizia uma, “hahaha” tergiversava a outra.
Mas nada... A primavera chegou, as formigas voltaram a trabalhar e nada da cigarra. O bolão agora era para apostar o dia e como ela havia morrido.
Ao procurar comida em uma rota conhecida a formiguinha ouviu ao longe um som familiar, parecia ser um chamamé, não que ela desse muita bola para estilos musicais. Para seu espanto, sim... Era a safada da cigarra, corada, sorridente fazendo um fandango para umas pulgas que estavam por ali esperando o cachorro das três.
A formiguinha correu em direção da cigarra com os olhos arregalados e perguntou “você está viva? Onde você estava? Te esperamos o inverno todo!!”, a cigarra jogou o paiero para o outro lado da boca, sorriu e respondeu “ahh, nem te conto, bati tanto papo por aí que acabei conhecendo um pato”, “ué, ele não te comeu?”, “não, fizemos um som juntos e ele acabou me apresentando a turma toda, aí quando o inverno chegou me perguntaram se eu ia voar para algum lugar tropical como eles para escapar desse frio, afinal, só otário para ficar por aqui nessa época”, “otário???? Tá tá, continua, e aí?”, “então, eu falei que minhas asinhas não me levam muito longe e não lido bem com o vento, então ele disse que me levava, mas eu tinha que ir tocando um som para animar a viagem”, “nossaaaa”, “pois é, a viagem foi muito boa, vi coisas que nem imaginava, ficamos quatro meses visitando praias lindíssimas e conhecendo uma bicharada muito louca”, “por que você voltou?”, “queria ver uns amigos, e matar a saudade, afinal, aqui é a minha terra né, e você? Como anda a vida?”, “ahhh, aumentamos a produtividade em 2,35% já na primeira semana”, “ahh, legal, só...”.
A formiguinha se despediu da cigarra e continuou a sua labuta.
A cigarra bateu forte com o pé no chão e perguntou “quem quer um forró? Aprendi na última viagem! e começou a tocar.